A arte de Tiago Cardoso carrega em si uma recusa fundamental: a de explicar.
Crescido em Cantagalo desde 2007, ano em que nasceu, ele foi formado num ambiente onde o desenho era linguagem antes de ser disciplina. Seu pai, designer de profissão, não precisou ensinar - bastou estar presente. "Não era muito raro durante o Jardim de Infância eu deixar de lado as atividades prontas e começar a produzir ali mesmo", conta Tiago. O que vinha depois era quase sempre a mesma cena: chegar em casa e continuar desenhando e pintando até cair no sono.
"2026", óleo sobre tecido americano em placa de madeira, 19 x 13 cm, 2026.
O trabalho que apresenta é duplo: uma pintura em óleo sobre tecido americano em placa de madeira e um projeto audiovisual, ambos de 2026. Nasceram juntos — não por planejamento, mas por necessidade. Tiago havia passado mais de um mês sem produzir nada, e o silêncio tinha peso. "Acredito que as produções existem em revolta ao hiato que passei por estar de férias", explica. "Me sentia sufocado por não ter criado nada e escolhi agir de alguma maneira, começando pela sonoridade."
As músicas vieram primeiro.
Gradativamente, tomaram forma. Depois as imagens do filme. A pintura apareceu no exato momento em que o audiovisual era finalizado — como se os dois não pudessem existir separados. "Creio que os dois conversem entre si. As duas bases estéticas estavam se movendo correlacionadas."
Olhar pra tela pequena de fundo negro é entender que Tiago não pinta pra ser entendido. Texturas pesadas, um retângulo marrom ao centro como uma abertura que não leva a lugar nenhum, marcas amarelas que não decoram — existem. "A minha criação é voltada totalmente ao experimentalismo", afirma. "Não penso no plano estrutural da imagem nem muito menos me prendo à existência de figuras.
O que eu tenho a fazer é me conduzir inteligivelmente no que diz o aparecer honesto das cores e interações entre os elementos da minha pintura."
E uma poética avessa as linguagens, como ele mesmo define. Uma expressão imagética repleta de texturas que tangenciam algo que a palavra não alcança.
Em 2025, ingressou no curso de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal de Juiz de Fora. Foi lá que encontrou um nome pra o que já fazia.
"Me encontrei como artista", diz, sem cerimônia.

Fragmento do projeto audiovisual "2026".
O projeto audiovisual segue a mesma lógica: preto e branco, tecido em close, grão alto. A sensação antes da leitura. Os dois trabalhos quase não chegaram a existir além da nuvem pessoal de Tiago — ele teve que resistir à tentação de abandonar antes do fim. "Por pouco as músicas e imagens não ficaram apenas na minha nuvem."
